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A verdade sobre o “Tiradentes” e a Inconfidência Mineira

Joaquim José da Silva Xavier, conhecido na história como Tiradentes, foi enforcado e esquartejado no dia 21 de abril de 1792. Em 1965, foi proclamado Patrono Cívico da Nação Brasileira pela Lei 4.867 e é a única pessoa do país homenageada com um feriado na data de sua morte. Do século 18 para cá, muitas histórias se construíram ao redor da figura do mártir e da Inconfidência Mineira, revolta colonial da qual participou.

Martírio de Tiradentes. Óleo sobre tela, de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1789)

Mas o que é mentira e o que é verdade na história desse personagem histórico? Elencamos dez afirmações recorrentes quando se fala desse momento do Brasil. Apenas uma é real. Veja se você consegue descobrir:

1) Os inconfidentes lutaram pela Independência do Brasil;

2) O grande motivo da Inconfidência Mineira foi a cobrança de impostos sobre o ouro retirado das minas;

3) A Inconfidência Mineira foi o movimento separatista mais importante do Brasil;

4) Conhecemos Joaquim José da Silva Xavier como Tiradentes por que ele tinha o título de dentista;

5) Era líder do movimento;

6) Jogaram sal no chão do terreno de sua casa para que nada mais crescesse;

7) Ele se entregou para salvar os outros inconfidentes;

8) O famoso quadro Tiradentes esquartejado foi pintado por Pedro Américo, que presenciou a morte do mártir;

9) O sumiço da cabeça de Tiradentes não passa de uma lenda;

10) O corpo do mártir está enterrado no município mineiro de Tiradentes.

Pronto? Então vamos às respostas:

1) Os inconfidentes lutaram pela Independência do Brasil

Na verdade, não. Quando a Inconfidência Mineira ocorreu, no século 18, ainda não havia a mesma consciência de Brasil como nação que temos hoje. Logo, eles não buscavam libertar todos os estados brasileiros do domínio da Coroa Portuguesa. O movimento tinha motivações específicas da região das minas, e atingia no máximo os estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

A bandeira do estado de Minas Gerias é baseada na bandeira que seria adotada após a Inconfidência Mineira. A expressão “Libertas quae sera tamen” significa em latim “Liberdade antes que tardia”

2) O grande motivo da Inconfidência Mineira foi a cobrança de impostos sobre o ouro retirado das minas

“Não se pode dizer que a cobrança de impostos foi o único motivo, isso é reducionismo. Havia um arrocho tributário, sim, e a cobrança de impostos foi usada para exaltar os ânimos da população contra o governo. Mas não foi a causa do movimento”, explica o professor Luiz Carlos Villalta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ainda segundo ele, o que fez as pessoas se reunirem enquanto grupo e se voltarem contra a coroa foi o fato de terem sido prejudicados política e financeiramente por uma série de motivos. Alguns deles perderam cargos políticos e a possibilidade de praticarem negócios legais e ilegais que poderiam enriquecê-los. “Tiradentes, por exemplo, que era militar, não foi promovido a Comandante do destacamento da Serra da Mantiqueira”. Era por essa serra que o ouro de Minas Gerais chegava até São Paulo. Logo, sendo comandante militar da região, ele poderia contrabandear algum ouro em benefício próprio.

3) A Inconfidência Mineira foi o movimento separatista mais importante do Brasil

Não é bem assim. A Inconfidência teve um impacto muito importante para a história do país, mas muitas outras revoltas coloniais, até mais bem sucedidas, ocorreram. A Revolução Pernambucana de 1817, por exemplo, conseguiu instituir um governo republicano, liberdade religiosa e de imprensa, soberania popular e abolição da escravatura lenta e gradual. Esse governo foi mantido por quase dois meses, mas foi violentamente reprimido pelo governo português. O movimento mineiro nunca passou de uma conspiração, mas por que então ganhou tanto destaque? “A Revolução Pernambucana ocorreu no Nordeste do país. Já a Inconfidência foi um movimento da elite branca de uma região que detinha grande poder econômico e sempre foi mais valorizada do que as outras”, explica Juliano Custódio Sobrinho, professor de História da Uninove.

 

4) Conhecemos Joaquim José da Silva Xavier como Tiradentes por que ele era dentista

Ele “cuidava” de dentes, mas não possuía o título de dentista, até mesmo porque só há registros da palavra dentista para designar uma categoria profissional a partir de 1800, data posterior a sua morte. No século 17, os médicos se recusavam a mexer nos dentes das pessoas e quem “cuidava” dessa parte do corpo eram os barbeiros. Mas o trabalho consistia em apenas extrair o dente, de forma bastante rudimentar e dolorosa. Foi a partir de 1631 que a Coroa Portuguesa passou a multar quem exercesse essa prática sem licença. Nesse contexto, surgiram os tira-dentes. E, ao contrário da maioria dos demais, Tiradentes não só extraía dentes como também os fabricava, com ossos de animais, e os implantava.

5) Era líder do movimento

Essa é uma afirmação bastante equivocada. Apesar de ter tido um papel muito importante, nunca foi líder. “Foi ele quem levou as discussões que ocorriam em reuniões privadas para um ambiente mais público, como sítios, prostíbulos, tavernas. E como ele não era uma pessoa tão bem relacionando quanto os outros inconfidentes, era o de classe mais baixa entre eles e não pertencia ao grupo de letrados, foi usado como bode expiatório”, explica Luiz Carlos Villalta, professor do departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais .

Leitura da sentença de Tiradentes. Óleo sobre tela de Leopoldino de Faria (1836)

6) Jogaram sal no chão do terreno de sua casa para que nada mais crescesse

É verdade. Devido ao crime de lesa-majestade (traição à pessoa do rei), considerado gravíssimo, a casa onde morava Tiradentes foi demolida e o terreno foi salgado. Seus  descendentes também foram declarados infames. “Hoje pode parecer algo sem importância, mas a ideia de honra era muito importante naquela época. Ferir ou retirar a honra era uma das piores coisas que poderia acontecer a alguém”, explica Luiz Carlos Villalta.

7) Ele se entregou para para salvar os outros inconfidentes

Na verdade, ele foi entregue. Em uma espécie de delação premiada, o coronel Joaquim Silvério dos Reis, que inclusive era amigo de Tiradentes, denunciou os colegas às autoridades da Coroa Portuguesa para obter o perdão de suas dívidas.

8) O famoso quadro Tiradentes esquartejado foi pintado por Pedro Américo, que presenciou a morte do mártir

O quadro é de 1893 e seu pintor nasceu em 1843. Ou seja, Pedro Américo não só não presenciou a morte de Tiradentes como não era nem mesmo nascido quando ela ocorreu, em 1792. O pintor exaltava os sentimentos nacionalistas em suas obras, como é perceptível no famoso quadro O grito do Ipiranga. Com o fim da monarquia, perde o cargo de pintor oficial e decide pintar uma série de quadros sobre o movimento mineiro buscando recuperar o apoio do governo. A série não aconteceu, mas o quadro Tiradentes esquartejado tornou-se uma das principais obras da história do país.

Tiradentes Esquartejado. Óleo sobre tela de Pedro Américo (1893)

9) O sumiço da cabeça de Tiradentes não passa de uma lenda

Pode parecer mentira, mas não é. A pena imposta a ele é chamada de punição exemplar, ou seja, deveria servir de exemplo para que outros não cometessem o mesmo erro de trair o rei. Para que isso ficasse claro para o maior número possível de pessoas, seu corpo foi esquartejado e as partes expostas em locais públicos. A cabeça, estava exposta em uma praça da cidade de Ouro Preto, antiga Vila Rica. Durante a noite, ela simplesmente sumiu. Hoje, a praça possui o nome de Tiradentes.

10) O corpo do mártir está enterrado no município mineiro de Tiradentes

Não. O que sobrou de seu corpo, foi enterrado  em segredo no altar da antiga Capela de Sant’Anna de Sebolas, atual Igreja Nossa Senhora de Sant’Anna de Sebollas, que fica no município de Paraíba do Sul, no estado do Rio de Janeiro.

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